O coração liberto e devoto

O coração liberto é devoto na proporção da consciência da sua libertação.
Maria Madalena nasceu na aldeia galileia de Magdala. Os galileus eram os habitantes do norte de Israel na região conhecida como Galileia. Eram judeus do campo, trabalhadores simples e de fala distinta e formavam a base do ministério de Jesus e a maioria de seus discípulos, entre os quais estava Maria Madalena.
Pouco se diz a respeito de Maria Madalena, mas no início e no fim dos evangelhos afirma-se que ela era aquela de quem Jesus havia expulsado sete demônios (Lucas 8.1-3, Marcos 16.9). Não podemos precisar de que tipo de libertação ela foi alvo, se foi uma libertação física, mental ou espiritual. Também não devemos confundi-la com a mulher pecadora que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas (Lucas 7.36-50). Se fossem a mesma pessoa, Lucas teria feito a conexão imediatamente.
Jesus operou libertação de forma espiritual ao expulsar espíritos imundos de pessoas oprimidas ou violentas, como o endemoniado gadareno, quebrando amarras ligadas ao mal e restaurando a paz mental e espiritual.
Jesus operou libertação de forma física ao curar pessoas oprimidas por enfermidades prolongadas, como a mulher encurvada por dezoito anos. Também ao restaurar a visão de cegos, a fala de mudos e o movimento de paralíticos.
Jesus operou libertação de forma social ao romper com a culpa e a condenação moral, oferecendo uma nova vida. Ele resgatou a dignidade de pessoas marginalizadas pela sociedade da época, como leprosos e pecadores.
Não sabemos o tipo de endemoniamento desta mulher, mas podemos observar sua profundidade e complexidade. Na tradição bíblica o número sete simboliza totalidade e perfeição, portanto, a libertação representa a cura de uma enfermidade gravíssima, de um profundo tormento espiritual ou a libertação de todos os vícios e males. Foi após esse encontro transformador que ela tornou-se uma das seguidoras mais fiéis de Cristo, a primeira a vê-lo ressuscitado e conhecida como a "Apóstola dos Apóstolos”, por ser enviada a dar a notícia da ressurreição em primeira mão.
No caso da mulher pecadora (Lucas 7), observamos o argumento de Jesus de que o ato de amor extravagante dela de “molhar-lhe os pés com suas lágrimas, enxugar com seus cabelos e beijá-los e ungi-los com o perfume” era motivado pela consciência do quanto havia sido perdoada. Sua devoção foi na proporção da sua libertação ou do perdão que alcançou. Maria Madalena vivia uma situação complicadíssima, ela era uma mulher endemoniada numa sociedade patriarcal, machista e misógina, mas Jesus a liberta!
No caso do endemoniado gadareno (Lucas 8.26-39) encontramos alguém tão dominado pelo mal que mesmo “com os pés e as mãos acorrentados e aos cuidados de guardas, quebrava as correntes e era levado pelo demônio a lugares solitários”. Seu encontro com Jesus causou admiração nos outros, pois o encontraram “assentado aos pés de Jesus, vestido e em perfeito juízo”. Depois de ser liberto de uma legião de demônios ele queria ficar próximo de Jesus, mas a libertação que experimentou moveu sua devoção e ele submeteu-se a Jesus e voltou para casa “e anunciou na cidade inteira o quanto Jesus tinha feito por ele”. Maria Madalena é a expressão de alguém que experimentou o ano da libertação proclamado por Jesus (Lucas 4.17-21). A liberdade perdida em Adão e Eva estava restaurada na vida da devota Maria Madalena, porque a quem muito é perdoado, muito ama.
Eugene Peterson argumenta que a cultura secular esvazia o peso de termos espirituais para reduzi-los a preferências cômodas. Mas devoção é a entrega total a Deus e a submissão à sua vontade, e não um mero sentimento subjetivo de acomodação a boas sensações ou conforto emocional. Devoção não é uma religião sem cruz ou renúncia.
A devoção de Maria Madalena lhe rendeu o privilégio de ser a primeira a encontrar Jesus ressurreto. Ela parte com as outras mulheres, mas chega no sepulcro antes delas e vê a pedra removida (Mateus 28.1). Ela vai aos discípulos e informa o sequestro do corpo (João 20.2) e depois é alcançada pelas outras mulheres (Lucas 24.9-10). Ela retorna ao sepulcro com Pedro e o discípulo amado e permanece chorando ali mesmo após todos irem embora (João 20.10-11), é quando vê dois anjos (João 20.12) e finalmente Jesus ressurreto lhe aparece propondo cultivar uma relação de outra dimensão (João 20.14-17).
A experiencia de Maria Madalena é uma expressão da essência do Evangelho, pois Jesus veio destruir as obras do diabo e instalar um novo reino onde os cativos são libertos (1 João 3.8).
As obras do diabo, manifestas no pecado da desobediência, na mentira e no engano que impedem o conhecimento da luz da verdade do Evangelho e a escravidão aos vícios, ao medo da morte e na culpa, são desfeitas por Jesus através do seu sacrifício na cruz, onde a culpa do pecado foi tirada e a morte perdeu o seu poder final sobre nós, onde Ele oferece um novo começo e o poder do Espírito Santo para vivermos de forma justa e longe do mal e a fé aos seus seguidores como ferramenta espiritual para resistir ao mal e viver em liberdade.
Maria Madalena foi liberta do profundo mal que a escravizada pelo poder de Jesus, e por isso passou a viver uma vida de devoção a Jesus.




