O coração disposto e quebrantado

O coração disposto e quebrantado é que é usado por Deus.
Quando adolescente, conheci um jovem que viveu uma tremenda transformação em seu modo de pensar e agir, atestado até pelos seus irmãos em casa. Aquele coração apaixonado por Jesus deixou-me impressionado, pois quando aquele jovem falava de Jesus, falava com uma paixão apaixonante e me interpelava se seria capaz de falar de Jesus com a mesma paixão. Isso me incomodava em mim.
Há duas características que falam do equilíbrio que há em um coração apaixonado por Jesus: a disposição e o quebrantamento.
Disposição é a inclinação para agir e tem a ver com o estado de espírito que revela ânimo, disponibilidade e prontidão para agir. É como aquele vendedor da loja de sapatos que diz a você “Estou à disposição” e, ao seu chamado, ele vem imediatamente prestativo e pronto a te atender. “Estar à disposição" significa estar pronto para ajudar ou a servir alguém.
Pedro era um discípulo cheio de disposição. Isso deve ser elogiado e foi uma característica usada por Jesus e ponto de cobiça pelo inimigo (Lucas 22.31-34).
Quando Jesus o chamou, numa decisão simples e resoluta, ele deixou as redes da pescaria e o barco para segui-lo. Quando Jesus advertiu sobre os planos do inimigo, ele afirmou categoricamente que jamais o abandonaria. Quando Judas e a multidão vieram prender Jesus, numa ação firme e objetiva, ele desembainhou a espada e feriu o servo Malco, procurando defender Jesus. E mesmo após a morte, ressurreição e assunção de Jesus, Pedro com posicionamento claro, liderou a igreja na escolha do substituto de Judas (Mateus 4.18-22; 26.31-35; João 18.10-11; Atos 1.15-26).
Mas mesmo um coração disposto pode fazer coisas erradas. Ainda assim é melhor ser disposto do que não fazer coisa alguma. É melhor ter um coração que revela ânimo, disponibilidade e prontidão para agir e que vai aprendendo e amadurecendo enquanto está disposto.
Na parábola dos talentos – aquela em que os servos recebem 5, 2 e 1 talento – há um servo que é chamado de “servo mau e negligente” e “servo inútil” porque preferiu enterrar seu talento ao invés de agir (Mateus 25.26-30). No Apocalipse, a carta à Igreja de Laodiceia denuncia a falta de intensidade - ou de disposição! – daquela igreja em servir com ânimo, disponibilidade e prontidão (Apocalipse 3.15-16). Entre os discípulos de Jesus houve o pedido dos irmãos Tiago e João, que embora ambicionassem receber as honras de sentar-se à direita e à esquerda de Jesus no Reino, que seria uma ambição boa, foram alertados pelo próprio Jesus que não sabiam o que estavam pedindo (Mateus 20.20-28).
Um coração disposto pode errar, mas é melhor errar pela disposição do que a inação. Por isso, é tão necessário que este coração disposto esteja quebrantado aos pés de Jesus. É o quebrantamento que vai evitar erros na caminhada com Jesus. O quebrantamento é necessário porque só disposição não basta!
Quebrantamento é a rendição voluntária do orgulho e da vontade própria a Deus. É a disposição e a inclinação para agir com ânimo, disponibilidade e prontidão completamente submissa à direção de Jesus.
Pedro tomou uma decisão simples e resoluta de deixar as redes, mas depois quis voltar à pescaria (Mateus 4.18-22, João 21.3). Pedro afirmou categoricamente que jamais abandonaria Jesus, mas depois veio a negá-lo três vezes (Mateus 26.31-35, 69-75). A decisão simples e resoluta, a afirmação categórica, a ação firme e objetiva e os posicionamentos claros parecem estar no campo da humanidade e do temperamento de Pedro e precisam estar submissos ao Espírito de Cristo.
O quebrantamento significa reconhecer a própria fraqueza e total dependência do Criador. O "coração quebrantado" é humilde, sensível e maleável para ser transformado espiritualmente, substituindo os desejos pessoais pelos propósitos de Jesus.
O coração disposto de Pedro precisava ser quebrantado. Toda sua disposição revelada anteriormente era puramente humana. Mas ao afirmar “Senhor, tu sabes todas as coisas e sabes que eu te amo” ele coloca-se totalmente dependente de Jesus e seu juízo. Não é mais “eu faço”, mas “tu sabes”.
Um coração disposto e quebrantado é um coração cujas afeições estão em Deus. Não são meros sentimentos superficiais e passageiros, mas são “o exercício mais vigoroso e sensível da inclinação da vontade e da alma” (Jonathan Edwards).
É o coração disposto – inclinado a agir com ânimo, disponibilidade e prontidão – e quebrantado - que rende o orgulho e a vontade a Deus – que é usado por Deus.




