Como alcançar saúde interior

A interioridade humana pode se tornar saudável ao encontrar satisfação na companhia de Cristo.
Segundo a Organização Mundial da Saúde OMS, saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças ou enfermidades. Acrescentamos a esta definição que saúde é o equilíbrio bio-psico-social e espiritual, pois cremos que o ser humano é um ser diverso e complexo em que todas as suas partes agem conjuntamente para termos uma identidade única e sermos o que somos.
Temos uma dimensão biológica com corpo físico e uma história genética e traços únicos. Temos uma dimensão psicológica com mente, pensamentos, memórias e emoções e sentimos dor, alegria e medo que formam nossa personalidade. Temos uma dimensão social e vivemos em grupos e na sociedade. Dependemos da família, dos amigos e da cultura ao nosso redor e das regras, costumes que aprendemos e criamos laços com outras pessoas. Também temos uma dimensão espiritual que nos lança na busca pelo sentido da vida e que dê valor aos nossos atos, paz interior e sentido ético. Buscamos a fé em algo maior e que nos ajude a encontrar esperança nos momentos difíceis.
A Mulher Samaritana (João 4) foi alguém que revela essa humanidade que precisa de equilíbrio em todas as dimensões. Ela foi uma mulher com grande capacidade intelectual e profunda sensibilidade espiritual, capaz de debater temas teológicos complexos, como o local legítimo da adoração a Deus que reflete a rica herança religiosa de seu próprio povo e a vivência de uma fé profundamente enraizada na tradição samaritana. Era uma mulher que parecia estar "à frente do seu tempo".
Sua cultura vinha sendo construída há séculos desde a divisão do Reino de Israel em 722 aC que consolidaram diferenças cruciais entre samaritanos e judeus e que explicam a surpresa, tanto dela quanto dos discípulos, do diálogo com Jesus. Eram diferenças políticas, religiosas, culturais e étnicas inconciliáveis na mente humana e que opunham o Monte Gerizim onde Samaria era localizada e o Monte Sinai onde Jerusalém estava edificada.
Mas ela tinha uma questão particular que exigia dela força interior e para qual encontrou a estratégia de recolher água no sol do meio dia, provavelmente para não confrontar-se com outras mulheres que recolhiam água em momentos mais frescos. Ela ansiava por algo que realmente a satisfizesse (verso 15) e Jesus vem confrontar sua interioridade tocando num assunto delicado. Por que ela já tinha tido seis maridos?
Ela vivia numa sociedade patriarcal onde as mulheres dependiam dos homens para sobreviver e não tinham direito a pedir o divórcio. Existem algumas teorias a respeito do porque ela teria tido tantos casamentos. No mundo antigo, a mulher judaica ou samaritana não podia abandonar o marido. Se ela estava no sexto relacionamento, a ruptura partira dos parceiros por motivos sociais ou econômicos, como a falta de filhos ou a viuvez sucessiva.
A visão tradicional imagina que ela tivesse uma vida pessoal imoral o que explicaria os múltiplos divórcios ou abandonos em uma sociedade patriarcal severa. Outra hipótese é a vulnerabilidade feminina diante da Lei do Levirato; ela determinava que o irmão de um homem falecido se casasse com a viúva a fim de gerar um herdeiro que mantivesse o nome e os bens da família. Repetidas viuvezes num cenário de doenças e guerras deixavam a mulher desamparada economicamente e presa casamentos arranjados para sua sobrevivência. Há também a hipótese alegórica que imagina que os cinco maridos foram cinco deuses estrangeiros a quem ela teria adorado e o sexto seria a sua atual religiosidade doentia. Há ainda a hipótese de ela ser, de fato, uma mulher muito inteligente, inquiridora, capaz e à frente de seu tempo a quem seus maridos não suportavam e, por isso, a mandavam embora com a carta de divórcio.
É mais certo dizer que o pecado da Mulher Samaritana residia no fato de buscar satisfazer sua sede em fontes erradas. Sem dúvida, ela era uma mulher insatisfeita até encontrar Cristo, mas quando Jesus lhe ensinou que Deus quer adoradores que o adorem em espírito e verdade e que suplantem o local de adoração, ela percebeu que conhecia sobre o Deus que falavam no lugar de adoração, mas não o Deus de “contigo andar”!
Seu interior foi transformado ao perceber que Jesus era o Messias aguardado. Jesus tinha a água da vida que satisfaz porque Ele é a presença que satisfaz até no mais profundo ambiente de caos, carência e aridez.
Olhando por fora, ela continuou a ser uma mulher vulnerável, sujeita a Lei do levirato numa sociedade patriarcal. Ou ela continuou a ser uma mulher rejeitada por vários maridos por ser estéril, insubmissa ou promíscua. Ou ainda, ela continuou a ser uma mulher alcançada pela tragédia de várias viuvezes. Qualquer que fosse sua condição, sua história continuava ali a rondar-lhe, mas depois do encontro com Jesus sua história - que não se apagara - não impediu que algo no seu interior mudasse. Ela passou a dizer “porventura, não é este o Cristo?” (verso 29)
O encontro com Jesus reorganizou definitivamente sua teologia e o seu interior. Ela passou a proclamar a Jesus – a água da vida - pois nEle superou sua história e encontrou satisfação para todos os seus anseios (versos 28-29, 39-42).




